Paradoxo da Improbabilidade Consciente: Uma Análise entre Probabilidade, IA e Filosofia
Meu pai me perguntou o que eu queria de presente.
Eu disse:
● Riqueza;
● Impunidade;
Ao menos me tornei rico.
E ganhei uma máquina, não uma maquita.
“Alguns ricos são tão miseráveis, coitados. Viajam de primeira classe e, olhando o mundo lá de cima, cospem do avião a dez mil pés. A saliva acerta a cabeça de um pobre, morto na hora. Ainda assim o rico é solto após pagar fiança, porque o crime foi considerado ‘desastre culposo’: afinal, ele não pretendia cuspir.”
Apesar de comovente esse relato de meu pai falecido, eu agora o desconsidero bastante. Destaco-me no setor de liderança na empresa técnica em coleta, armazenamento e processamento de um conjunto imenso de dados, aparentemente desconexos entre si. No entanto, quando inferidos, apresentam resultados surpreendentes. Com certeza, reconheciam tanto o meu talento no emprego que recebi ontem um presente curioso: uma máquina com um software capaz de listar todas as minhas possíveis escolhas futuras e existentes no mundo, além de apresentar suas respectivas probabilidades em tempo real, conforme atualizo meu conhecimento sobre a realidade. Então, deixei finalmente de concordar com meu pai: ninguém pode abrir as janelas do avião. Pelo menos não saio cuspindo pela cidade. Ela deve permanecer limpa.
Inquieto ontem à noite, decidi contemplar a arquitetura computacional: a primeira máquina de uso pessoal com um processador quântico. Eu a liguei e abri o aplicativo de predição. Em tom reflexivo, concluí isso ocorrer devido à propensão de minha curiosidade e não espontaneamente. Para evitar a repetição de ações do mesmo tipo, produzi uma estratégia aproveitando minha liberdade ao máximo possível: o descarte de qualquer sugestão mental apelativa, simples ou instantânea. Talvez mais uma modelagem fracassada. Dado à sensação de impotência, abandonei o trabalho noturno e voltei à cama. Desta vez, considerei no dia seguinte usar o computador para escolher o caminho mais improvável — aquele que poderia, porventura, garantir minha liberdade.
Acordando, não duvidei mais. Abri o computador, naveguei até a seção dos dias da semana e escolhi sábado, o dia para o qual o ponteiro do mouse já apontava. Em seguida, vi “cards” preenchidos na tela com breves descrições, sob as quais as probabilidades oscilavam discretamente. Ordenei-os por suas medidas até congelar de súbito: um card, de descrição truncada, apresentava uma chance de 0,00001% associada à minha vida.
Cerveja barata, cenário carnavalesco, encontro presencial com um indivíduo desagradável, dia ensolarado, meio-dia. Questionei por que aquilo não era impossível. A pontuação caiu no mesmo instante. Mesmo assim, sou obstinado, e a indignação com a queda me fez contrariar o sistema. Comecei a planejar o horário, os possíveis lugares aonde o sujeito iria e os modos menos invasivos : e menos estranhos : de cumprimentá-lo. Sorri ao ver os números subirem até 2%. Motivo tosco. Encontraria quem detestava. É isso mesmo: mais vale um inimigo informante do que um amigo que oculte as duras verdades da vida. Que eles vivam duzentos anos para saber como a vida é uma merda!
Porém, eu precisei reavaliar a decisão, pois não havia selecionado o lugar nem o momento de encontro através da baixa chance apresentada pela máquina.
Ela realmente é um ótimo problema de lógica: me recomendou ir a um bar muito requintado, onde a cultura vintage reina. Estranhei demais essa contradição. Lá não vende cervejas baratas. Mas percebi logo minha incoerência: O improvável só existe enquanto não se tenta realizá-lo; ao agir sobre ele, ele deixa de ser improvável, e outro improvável toma seu lugar. Desviar disso seria fazer e desfazer repetidamente em um loop desgraçado.
Comentários
Postar um comentário